sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Pescaria



Clara Nunes já dizia: "O galo cantou/Às quatro da manhã/Céu azulou na linha do mar"... e é assim que começa a pescaria. Dia amanhecendo, maré baixa.

Carrega o carro com vara, isca, isopor com água gelada e lanchinho, cadeira de praia e uma mochila com coisinhas básicas: toalha de banho, chapéu, protetor solar (extremamente necessário!), tábua e faca para limpar o peixe e cortar a isca, pequeno kit de pesca com anzol, linha, chumbinho e mais mil pecinhas que não sei o nome. E eu levei um livro, caso a coisa ficasse muito entediante. E essa foi a minha primeira vez.

Assim como a jardinagem está no sangue das mulheres da minha família, a pesca corre nas veias dos homens. Meu pai era um pescador assumido, onde tivesse uma pocinha de água lá tava ele com vara, isca e chapéu. Ás vezes ele pegava a barraca e o kit de pesca e ia para alguma beira de rio com meus tios e primos e voltava uma semana depois. Cheirando peixe, com a barba por fazer e feliz. Muitas vezes voltava sem o peixe...

Eu nunca entendi direito tudo isso: ficar sentado, em silêncio, debaixo de sol ou de chuva e ainda "matar' o pobre do peixe?! Não era o tipo de experiência que eu queria pra mim... Fora o fato de que mulher e pescaria não combinam!  Pelo menos é o que dizem os pescadores. Mas como tudo na vida muda, minha vida me leveou para lugares em que a pesca além de esporte para alguns era sobrevivência para outros.

Meu marido, como a maioria dos paulistas criados no asfalto, nunca tinha pensado nisso, mas por influência dos companheiros de cerveja acabou caindo na beira do rio e aprendeu a pescar. E claro, nunca mais largou! Aprendi que é assim, ou vc ama ou odeia, não tem um limite muito fácil de perceber quando isso acontece. O clima da coisa vai te envolvendo e vc vai fazendo e se entregando e aí já era.

Quando vc está pescando parece que a vida para. É vc, a água e o tempo. É uma atividade de muita atenção, vc tem que ficar o tempo todo esperto caso o peixe resolva te dar a graça de se enroscar no seu anzol. E não é fácil! Esse povo que diz que pegou não sei quantos mil quilos ou quantidades de peixe não é verdade! Ou melhor pode ser, mas aí dependde do tempo que vc tem pra ficar pescando. Ninguem pega toneladas de peixe em apenas uma manhã - impossível! E outra: aqueles pesque-pague não vale! Vc chega lá e tem a vara pronta e o peixe pulando pra fora... Isso nada tem a ver com o processo de pescaria real.

Pescar exige técnica, treino, paciência. Muita experiência. E chego a pensar que o prazer maior nem é pegar o peixe, mas é todo o ritual de ficar sozinho com seus pensamentos, sentado na beira de um rio - que tem um visual sensacional, com o barulhinho da água, o sol penetrando nos ossos, o vento acariciando o seu rosto... é quase um ato erótico! Só não dá prazer pra quem não consegue relaxar. E como ponto alto do ato nada mais emocionante do que tirar o anzol da água e ter o seu peixe fisgado. É a sensação de missão cumprida. Se o peixe for grande o suficiente para o almoço ai é perfeito, é como ganhar na loteira.

E então é hora de voltar pra casa: limpar o peixe na beira do rio ou do mar (no meu caso o encontro do mar com o rio), colocar no isopor, recolher a bagunça e festejar. Um brinde com cerveja gelada finaliza o ritual, afinal a gente merece! Ah, e o livro que levei foi só pra passear...

2 comentários:

  1. Juliano pescando... Quem diria... Belo texto, doutora!

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  2. praticamente profissional no assunto!!! hahaha, quem diria...

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